Historietas Assombradas no Cartoon Network

Secretária Nerd

 mimico Você tem medo do escuro? Acredita em bicho-papão? Tem medo de fantasmas? Não se mova!! Pelo contrário, fique onde está, puxe uma cadeira e prepare-se! Dia 4 de março estreia no Cartoon Network Brasil a mais nova série de animação brasileira: Historietas Assombradas (para crianças Mal Criadas)!

 Todo mundo sabe que as crianças adoram histórias de terror. Elas ficam apreensivas, com aqueles olhinhos atentos e boquinhas abertas prontas para um belo susto ou final enigmático. Essas histórias ficam se revirando na cabeça das crianças, se tornam os principais assuntos de debate na escola, no condomínio ou no clube. Pense bem! Nunca outra geração esteve tão confortável com monstros e fantasmas do que nossos pequenos herdeiros de hoje em dia. Os desenhos animados tem um papel fundamental na produção desses seres e o Cartoon Network sempre teve um apreço por monstros, alienígenas e  bichos maneiros.

 Podemos dizer que 2013 será uma epifania na produção de series de animação brasileiras. Nossos conterrâneos estão mandando muito bem! Veremos o resultado dos incentivos nacionais em muitas produções interessantes circulando pelas televisões e internet de todo o país. Fiquem ligados aqui na Casa do Nerd!

Conversamos rapidamente com o diretor e criador da série Victor-Hugo Borges sobre a produção nacional, suas influências artísticas e a internet! Confira a seguir:

Casa do Nerd – Olá Victor-Hugo! É um prazer recebê-lo em nossa Casa. Primeiramente, gostaríamos de parabenizá-lo e desejar muita sorte em 2013! Falando nisso, quais as suas perspectivas para este ano?
Victor-Hugo Borges – Valeu, esse ano será muito especial para mim e para minha equipe. Estamos realizando um sonho em 2013, pois estrearemos a série Historietas Assombradas (para crianças malcriadas) na TV no começo de março, um projeto que a gente vem trabalhando desde 2005 e que finalmente vai pro ar. Além de conseguirmos um espaço valioso na TV, estou muito orgulhoso do resultado final, a série tem todos os elementos necessários para fazer o expectador grudar na tela: terror, humor, aventura, ação etc. Sempre com alguma mensagem positiva, mesmo nos enredos mais malucos. Foi uma jornada e tanto, que teve o envolvimento de dezenas de pessoas muito talentosas.
 
CN – Sobre suas animações de curta-metragem, conte-nos um pouco mais sobre elas?
 
VHB - Eu comecei a animar por instinto quando ganhei uma camcorder amadora na adolescência. Sabia os princípios de animação e fui experimentando. Quando fui fazer faculdade em meados dos anos 90, já tinha uma base e decidi usar animação como minha forma principal de expressão. O meu TCC foi um curta chamado “Klaustro”, ainda trabalhando com um grupo de colegas. Mandamos o curta para um festival, totalmente sem pretensão alguma, o filme não só foi selecionado como ganhou o festival na categoria animação. Entusiasmado pela recepção, decidi que queria tentar viver de animação. O grupo da faculdade havia se dispersado com exceção de um colega chamado Claudio Nascimento. Junto com ele, fiz mais dois curtas: “Des Fantastik Sucric” e “El chateau”. Que tiveram sucesso moderado; ganhando alguns poucos prêmios. Todos estes trabalhos foram feitos na marra, sem dinheiro nenhum, totalmente “cinema garagem”. O Cláudio decidiu buscar outras prioridades mas eu decidi que queria continuar fazendo animação e em 2004 com o auxílio do Paulo Boccato e Mayra Lucas (meus produtores executivos até hoje), inscrevi um roteiro chamado “Historietas Assombradas (para crianças malcriadas)” num edital chamado Curta Criança. Escrevi o roteiro numa tarde só, também sem esperar muito.
Deu muito certo, esse edital abriu as portas pra mim pois foi o primeiro curta que fiz que tinha um orçamento decente então tive a chance de mostrar melhor meu trabalho. O resultado não poderia ser mais positivo, o filme foi lançado em 2005 e ganha prêmios até hoje! Acumulou dezenas de prêmios no Brasil e exterior. Na sequência eu fiz “Icarus”, que também teve uma carreira frutífera e solidificou meu nome no circuito de festivais. Depois fiz “O Menino Que Plantava Invernos” e “Tristesse Robot”. A caracterìstica principal desses dois filmes é que eu os fiz totalmente isolado, “improvisando” cena à cena. Tinha uma idéia base na cabeça mas ia animando sem storyboard ou animatic, como numa “jam”. São filmes um pouco mais herméticos mas que também tiveram bons resultados, conseguiram um certo culto. Também fiz vinhetas e filmes encomendados, como “Fazendo Uma Amiga” e “O Ladrão de Nomes”, entre outros.
 
CN – Fale sobre suas fontes de inspiração! O que você gosta de assistir? O que costuma ler? Nas artes, quais as suas referências?
 
VHB - Acho que a gente tem 2 tipos de influência. O tipo “visceral” e o tipo “intelectual”. A influência viscecral é a que você absorve sem perceber, geralmente na infância e adolescência. Por exemplo, os videogames da Nintendo sempre foram os meus preferidos e com certeza me influenciaram em termos visuais e narrativos ainda na primeira infância. Poucas pessoas percebem isso, mas mesmo no Historietas existem passagens muito inspiradas pela Nintendo. A escolha de 3D “cel shade” e “low res” para contar as histórias vieram disso. Me lembro também de quando assisti “Beetlejuice” do Tim Burton pela primeira vez, gostei muito porque eu gostava de terror mas tinha muito medo, era muito pequeno. A mistura de terror e humor em Beetlejuice me deu um certo conforto pra imergir no gênero. Muitos anos depois, tive a chance de trabalhar com o roteirista de Beetlejuice (Larry Wilson) e viramos amigos imediatamente. Quando já estava estudando artes plásticas; começaram as influências mais intelectuais, como correntes artísticas tipo expressionismo alemão e art nouveau, literatura fantástica como Jorge Luis Borges e Mário Quintana, literatura infantil macabra como de Edward Gorey e Maurice Sendak, descobri a diretora de arte Mary Blair, da Disney, animações autorais como as do Studio Ghibli e da escola francesa de animação (Gobelins, SUPINFOCOM) etc. 
 
CN – Seu curta-metragem Historietas Assombradas (para crianças malcriadas) de 2005 fez muito sucesso e com certeza ajudou muito na projeção de sua carreira! Quase dez anos depois, Historietas Assombradas virou uma série de TV e será exibida no Cartoon Network. Como isso aconteceu?
 
VHB - Com certeza. A projeção do Historietas foi o principal motivo da gente tentar dar continuidade àquele universo, era impossível ignorar o fato de que tinha ainda algo naquele curta que valia a pena expandir. Então desde 2005 eu e meus produtores tentamos criar um “template” que serviria de base para uma estrutura episódica. Cometemos muitos erros que culminaram num piloto em 2009. Eu até gosto do piloto mas a pesquisa de público-alvo não concordava comigo. Acho que o problema é que ainda estava muito preso ao material original e não tem jeito, curta é pra cinema, tem outro ritmo, outra pegada. TV tem que ser mais ágil, mais dinâmico, tem que ter “punch”. Atingimos um consenso com a série que estréia esse ano, e basicamente, só atingimos esse consenso abandonando qualquer intenção de “template”. Alguns executivos do Cartoon Network tiveram acesso à alguns episódios não finalizados e mostraram interesse desde então. E faz sentido, pois esse formato do Historietas tem elementos que homenageiam o estilo Cartoon Network dos anos 80/90 pois usamos o ritmo e ousadia das gags das séries de TV que gostávamos quando éramos criança, e muitas dessas séries eram do próprio Cartoon Network. Os roteiristas (Vitor Brandt, Arthur Warren e Pedro Aguilera), tem uma formação de humor e timing que se baseia muito nos anos 90. O pessoal do COPA Estúdio (Tromba Trem) também tem muita influência do CN e eles animaram o Historietas. Tudo confluiu, quem conhece meu trabalho vai perceber minha mão ali, mas muita gente vai se surpreender em quanto a série está televisiva, ágil…
 
CN – A lei 12485 do Audiovisual está incentivando a realização de programas e séries independentes. Com a crescente produção nacional para TV paga, você acredita que haverá um hiato na produção de curta-metragem no Brasil? 
 
VHB - Acho que ainda é cedo para prever. Espero que não, espero que ainda haja espaço para ambos os formatos pois de certa forma, dependemos do lado mais livre e experimental do curta-metragem pra ajudar a definirmos nosso estilo enquanto artistas e precisamos também de uma indústria; de produção em linha pra gerar empregos fixos e sustentabilidade, coisa que a só a TV tem como manter. Muitos bons artistas acabam indo pra publicidade pra se manter pois não havia produção de conteúdo televisivo independente, agora estamos entrando numa era em que isso começa a ser mais viável.   
CN – Segundo pesquisas do jornal The New York Times, o número de espectadores de televisão vem diminuindo consideravelmente ao longos dos últimos quinze anos. Em paralelo, iniciativas independentes e programas de “televisão para internet”, estão conquistando o público formado pela nova geração online. Você acredita que o mercado audiovisual brasileiro está preparado para enfrentar esta transição?
 
VHB - Também acho que só teremos mais certeza daqui a alguns anos. Mas uma coisa é certa, com o aumento da velocidade da internet, é inevitável que os veículos se fundam e virem uma coisa só. As possibilidades são imensas: programação por demanda, hyperlinks, games relacionados, curiosidades, making ofs, dados estatísticos, etc. Tudo junto, de forma indissociável e interativa. Pra mim, como autor, pouco importa como vai ser, de qualquer forma, conteúdo original será sempre disputado, todos só temos a ganhar. Além disso, a internet pode ajudar a produtores independentes a se destacar.
Acho que existe uma corrente política e cultural recente no Brasil que está atenta a essas tendências. Temos muito o que aprender, mas estamos aprendendo rápido.  
 
CN – Bom, estamos chegando ao final de nossa entrevista e para completar, gostaríamos de 5 sugestões para essa galera que sonha em trabalhar com animação no Brasil! Muito obrigado Victor-Hugo Borges pela sua entrevista, até a próxima!
 
VHB - Essas diretrizes são as que funcionam pra mim, espero que sejam úteis para mais pessoas:
1) Tenha sempre uma idéia clara do que você quer produzir. Se essa idéia não for clara, chegará difusa ao seu público alvo. Ou seja, primeiro aprenda o “figurativo”, só depois tente a “abstração”.
2) Respeite e conheça bem o seu público-alvo, por mais que seu projeto seja original, você precisa tentar entender do que seu público gosta e mais importante: DO QUE PRECISA. 
3) Se cerque de pessoas criativas e inspiradoras o tempo todo, é impossível chegar a algum lugar sozinho.
4) Nunca desista: erre, aprenda e recomece do zero se for o caso.
5) Ame o que faz, é importante saber distinguir amor e “paixão”. Amar o que faz muitas vezes significa sofrer um pouquinho todo dia. Paixão pode te deixar nas alturas e essa falta de “chão” não é um bom sinal. Trabalhar com arte não tem nada de glamour nem hype, quem busca isso jamais poderá se considerar um bom artista.
É isso, obrigado a vocês pelo bate-papo e até a próxima!
VictorH1212Com formação em artes plásticas, Victor-Hugo Borges acidentalmente se envolveu com animação há 12 anos atrás e desde então ganhou mais de 80 prêmios nacionais e internacionais. O diretor e animador possui no currículo vários curtas de animação que foram exibidos mundo afora, entre eles: “O Menino Que Plantava Invernos”, “Icarus” e Tristesse Robot”. Victor-Hugo também é criador das séries “Historietas Assombradas (para crianças Mal Criadas)” que será exibida pelo Cartoon Network em breve e “O Baú do Lu”, e está trabalhando na pré-produção de seu primeiro longa-metragem entitulado provisoriamente “O Clube Secreto dos Monstros”, que tem roteiro do norte-americano Larry Wilson (“Beetlejuice” e “A Familia Addams”), produção do britânico Max Howard (“Uma cilada para Roger Rabbit” e “Space Jam”) e será realizado em 3D estereoscópico.
 Além de audiovisual, Victor-Hugo já trabalhou com ilustração, e direção de arte (Coleção Zé do Caixão, Contracampo, Projeto Frame A Frame Cinemark, CineFantasy entre outros), curadoria (Curta Santos, Fantascópio SESC, entre outros), palestras (SENAC, SESC, Oswald de Andrade, entre outros), oficinas (Kinoforum, Festival de Goiânia, entre outros) e vinhetas (TVE, MTV, TV Cultura, entre outros).  Seus filmes tiveram retrospectivas no Festival de Santa Maria da Feira (Portugal) em 2007, e no Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), em 2008. Em 2011 lançou seu primeiro livro (Historietas Assombradas) pela editora LeYa.
 Victor-Hugo tem 33 anos, é diretor criativo na Glaz Cinema, mora em São Paulo e tem um filho.

Quem quiser entrar em contato com o diretor pode encontrá-lo no twitter (victorhvgo@twitter.com)!

Não se esqueça de curtir a página da animação no Facebook (http://www.facebook.com/pages/Historietas-Assombradas-Para-Crianças-Malcriadas/265427830161410)!

Então tá marcado na minha agenda: Historietas Assombradas estreia dia 4 de março às 19h30 no Cartoon Network Brasil! Quem não puder, não se preocupe nós nos encontramos aos domingos na reprise, às 16h30.

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